Turquia

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quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Melquisedec


Dieric Bouts, the older




1) Desde Julius Wellhausen (1844-1918) existe uma hipótese de quatro fontes conjugadas de escrita da Bíblia [Torah/Antigo Testamento]: uma Javista, uma Eloísta, uma Deuteronomista e uma Sacerdotal. A casta sacerdotal reformou a História Hebraica para fins de:  a) encorajamento da unidade de seu povo em meio a outros povos nômades; b) falseou ou majorou o caráter e importância dos Reis e Juízes; c) reescreveu a história de seu povo em várias camadas, sobretudo após o exílio babilônico, relendo períodos anteriores a partir do exílio e pós-exílio babilônico [reescreveu o passado e até forjou certos detalhes a partir desse marco ocorrido séculos depois]; d) enalteceu seu próprio papel [de casta sacerdotal] nessa reescrita. Esses são os "doutores da Lei" e "fariseus" dos tempos de Jesus.

2) Com o que eu expus acima, o povo judaico eliminou escritos laicos/não-profanos de sua memória étnico-nacional. Portanto, o Povo de Israel suprimiu uma história laica sobre si mesmo. É um povo que não possui uma história secular sobre si mesmo.


3) Ainda que isso tenha sido feito para "uso interno", para encorajamento étnico-nacional diante de povos concorrentes e igualmente nômades na origem, e igualmente bárbaros, esta história sacralizada passou aos anais de todo o mundo cristão, pela indevida apropriação desses textos sem a revisão crítica necessária. Isso é caso único na história.


4) Vou explicar porque é caso único. Peguemos qualquer civilização antiga: todas elas. Há uma história secular grega. Nenhum de nós confunde o panteão grego com sua história secular. Da mesmíssima maneira, há uma história secular Suméria, Babilônica, Persa, Egípcia. O Povo de Israel [e isso faz parte de sua auto-imagem como Povo Eleito] é o único povo da terra cuja imagem Sacra [ou Escritura] se superpõe aos seus registros seculares, porque esses foram suprimidos.


5) Assim, o Povo de Israel foi incapaz de escrever para si uma história secular ou não-sagrada. Eles tomam sua história como sacratíssima e especial. 


6) A única exceção na Terra sobre essa condição são alguns dos árabes que se enxergam "a partir de Maomé", mas isso seria começar sua história no século VII. Por isso, esses doentes destroem sítios arqueológicos mais antigos [anteriores ao século VII!] . Mas nós os chamamos doentes, loucos ou maus. Não chamamos aos judeus da Palavra loucos, doentes ou maus.

7) Há três menções a Melquisedec, curtas, na Bíblia: duas no AT [Antigo Testamento : Gênesis e Salmos] e um no Novo Testamento [Carta de Paulo aos Hebreus, provavelmente uma carta escrita por um discípulo de Paulo]. Há um silêncio depois da menção do Gênesis. Por que? Vamos às razões possíveis e prováveis: 1) Melquisedec é cananeu, não um judeu. Seu sacerdócio é mais antigo do que o hebraico, apresentado nessa passagem como superior ao hebraico, independente do hebraico e a divindade a quem Melquisedec cultua é El Elyon, não o Javé dos hebreus. Aliás, por muitos estudos comparativos que eu fiz, El é o Deus Supremo de toda a Terra de Canaã, ao contrário de Javé que é visto como o Deus Tribal de Israel, no monte Hebron/Sinai, um deus atmosférico e dos vulcões [o monte sinai foi um vulcão ativo!].

 8) Tratar de um sacerdócio paralelo, anterior e superior ao sacerdócio de Israel [que começa com Aaarão, irmão de Moisés] e que é hereditário, por descendência de tribo [a tribo de Levi, da qual vieram Moisés e Aarão], enfraqueceria o mesmíssimo sacerdócio que reescreveu a Bíblia para seus fins. Por isso, o silêncio obsequioso a respeito de Melquisedec.

 9) O sacerdócio de Melquisedec não envolvia matanças de animais. Ele usava pão e vinho.


10) O próprio Jesus estava desautorizado a ser sacerdote pela norma judaica, por não ter ascendência na Tribo de Levi. Ele poderia ser "profeta" [e os profetas, todos, foram "não-sacerdotes"], mas jamais um sacerdote.


11) Detalhe: Melquisedec, o cananeu sem genealogia, foi um Rei-Sacerdote de Salém, a cidade que, no futuro, seria a Jerusalém dos judeus. Jesus, como Messias, era uma espécie de rei-sacerdote, espiritualmente falando. Por isso, ele só o poderia sê-lo segundo uma outra ordem "mais antiga" e "paralela" á ordem sacerdotal hebraica [levítica]: segundo a Ordem de Melquisedec! Paulo assim o apresenta na Carta aos hebreus. O Salmo 110 [sobre o qual Jesus indaga aos fariseus: quem era aquele Senhor acima do meu Senhor, do qual falou o salmista?] cita a mesma Ordem de superioridade sobre o Messias que haveria de vir.


El é o Deus de Toda a terra de canaã. Os patronímicos Gavriʼel/ Gaḇrîʼēl [“homem forte de Deus”], Mī kāʼēl["quem como Deus"?] e muitos outros o demonstram, mesmo entre os judeus da época. El Elyon significa "Deus, o Altíssimo". Cananeus, Amorreus, Jesebeus, Heteus [hititas], todos os povos da planície o cultuavam. Por "demarcação" e "distinção étnico-nacional", os hebreus "demarcaram" o Deus Yavé [um deus vulcânico-atmosférico - "cuja coluna de nuvens precedia a travessia pelo deserto durante o dia, e uma coluna de fogo precedia os judeus a caminho da terra Prometida durante a noite"], por uma "iniciativa estratégico-mosaica" de unificação do povo, reafirmada e reiterada a partir do século VI a. C. [após o exílio babilônico], quando as fontes deuteronômico-sacerdotal compilaram os registros orais sobre Moisés e o Pentateuco [ os cinco primeiros livros da Bíblia], cerca de 13 séculos depois daqueles mesmos eventos terem ocorrido, se contarmos de Abraão em diante. 



Com isso tudo, entende-se o fato do nome de Melquisedec ocupar um parágrafo e meio em toda a Bíblia [!], o que seria de causar enorme estranheza, uma vez que o Patriarca Abraão, pai de todo o Povo Judeu, se ajoelhou diante dele e lhe pediu a bênção [!], antes de existir qualquer sacerdócio hebreu [!], mostrando uma deferência que contraria a suposta "eleição divina do Povo Escolhido". Ou, no mínimo, apresentando essa "eleição" como "subsidiária" ou "não-exclusiva". É isso. 





Marcelo Novaes

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